Entrevista com Fábio Moon e Gabriel Bá (parte 2 de 3)
Continuação da entrevista feita a Fábio Moon e Gabriel Bá durante a inauguração da exposição de originais na Galeria Mundo Fantasma (pode ser visitada até ao dia 11 de Julho).
A primeira parte da entrevista pode ser lida aqui.
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FA: E além dos quadrinhos, têm outras influências, de música ou livros? Há o Machado de Assis mas não sei se na altura já liam Machado de Assis…
B&M: A gente lê muita literatura. Hoje em dia lê menos porque a gente trabalha demais. Tem muito Machado de Assis, tem muito Guimarães Rosa no nosso trabalho. Houve uma época em que a gente estava apaixonado por Guimarães Rosa.
FA: Os quadrinhos eram um hobby. Houve uma altura em que vocês decidiram que era o que gostariam de fazer?
B&M: Ah, eu acho que já com 14 anos isso já deixou de ser hobby. Aos 14 anos a gente já decidiu que era o que a gente queria fazer.
FA: Já desenhavam desde antes?
B&M: Sempre desenhamos mas com 14 anos a gente começou a pensar: “Nossa, é isso que eu quero fazer mesmo”. A gente tinha visto “O Edifício”, do Will Eisner, e tinha lido “Capitães de Areia”, do Jorge Amado, duas histórias quotidianas que mostravam essa relação entre as pessoas. Então, a gente viu que dava para fazer isso em livro, dava para fazer isso em quadrinhos e ao mesmo tempo, lendo as histórias do Laerte, “Os Piratas do Tietê”, em que as histórias se passavam em S. Paulo, a gente se sentiu muito familiarizado com o cenário da história.
Então, a gente viu que dava para contar histórias em que as pessoas se reconheciam no personagem, se reconheciam no local, se reconheciam na situação e era uma sedução desse todo reconhecimento em criar uma história que seduzia os leitores. Foi mais ou menos nessa época que a gente decidiu ir por aí.
FA: Umas histórias mais reais…
B&M: É, real mas com um elemento diferente, um elemento fantástico meio que nem as histórias do Saramago, sabe?
FA: Nunca li Saramago.
JRF: Eu também não.
B&M: Nunca?
FA: Não.
GB: Acabou a entrevista, acabou a entrevista. Mas vocês são portugueses! [Ele] é muito bom.
FA: Temos tempo. Os livros estão aí…
FM: Mas ele vai morrer! (nota: José Saramago morreu no dia 18 de Junho)
FA: Mas os livros ficam.
B&M: É, eles ficam. Mas é… o que ele faz nos livros dele é um pouco isso. Ele sempre conta coisas num mundo real mas com um elemento estranho e aí isso chama a atenção para as coisas do mundo real.
FA: Há sempre alguma coisa que não bate certo…
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B&M: Alguma coisinha diferente que acontece. Nem “O Ensaio sobre a Cegueira”? Viram o filme?
FA: Não.
JRF: Também não.
B&M: Não? Tá bom.
FA: O filme é brasileiro
B&M: O filme é de um director brasileiro.
FA: Fernando Meirelles.
B&M: Tem que ler. É muito bom, é muito bom.
JRF: Quando é que vocês se aperceberam que podiam fazer mesmo quadrinhos? Vocês aos 14 anos queriam fazer…
B&M: Ah, nunca teve…
JRF: Isso é um sonho quase de adolescente, não é? Depois, de repente são profissionais, com prémios muito importantes nos EUA. Quando é que vocês se aperceberam que realmente aquilo ia ser a vossa vida?
B&M: Sei lá… Eu acho que a gente… Quando a gente estava na escola, não tinha entrado ainda na faculdade, a gente era muito “nerd”, muito CDF. A gente tirava 10 na escola…
JRF: O que é CDF?
B&M: CDF é “cu de ferro”.
FA: “Nerd”, sabemos o que é mas CDF, não.
B&M – A gente ia muito bem na escola, podia ter feito qualquer coisa. Só que eu sempre achei que você tem de fazer o que você gosta de fazer porque assim vai fazer melhor. E se você fizer o que você gosta de fazer, você vai fazer melhor. E se fizer melhor, vai chamar a atenção. Meio por isso, a gente nunca duvidou que ia conseguir fazer quadrinhos. Quando a gente entrou na faculdade, não tinha nehuma editora publicando quadrinhos de autores brasileiros. Fora a Mônica, que nunca morreu, tinha acabado tudo.
JRF: Esse é o problema. Se fosse cá em Portugal, ainda hoje isso acontecia.
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B&M: Pois é. Mas naquela época não tinha internet, era difícil trabalhar para fora. Mas a gente lia, saía no jornal os desenhos dos brasileiros que estavam trabalhando no exterior mas que naquela época só conseguiam trabalhar imitando o estilo do Jim Lee, imitando o estilo do Joe Madureira.
FA: Um estilo próprio não pegava.
B&M: Num estilo próprio, não. Mas era um jeito de ganhar dinheiro. A gente pensou: “bom, isso existe, tem lá os agente que estão fazendo essa parte intermediária. Talvez a gente faça isso”.
Naquela época tinha muito super-herói e a gente adorava super-herói. “vamos desenhar super-herói, vamos fazer isso”. Não deu certo porque era uma coisa de desenhar sem ter história para desenhar e aí não tinha tesão de desenhar as histórias sem contexto. Não deu certo. Mas a gente sempre acreditou que dava para contar as nossas histórias e que então se fosse demorar, então demorava. A gente foi fazer a faculdade de Artes Plásticas e na História da Arte tem lá uns pintores que morreram pobres, depois a obra ficou. A gente fez um “Pô, talvez a obra vá só ser descoberta depois da morte”. Não é desculpa. O Guimarães Rosa, ele era advogado, ele era médico e nas horas vagas ele escrevia. Tinha um poeta brasileiro que era servidor público, trabalhava no Governo, nas horas vagas ele escrevia. O Vinicius de Moraes era diplomata, trabalhava no Governo e nas horas vagas ele escrevia. Então, as pessoas estão criando porque elas precisam fazer. Não pode simplesmente… não ter mercado, não ter dinheiro, não é desculpa. A gente partiu daí, sabe? Preciso fazer história em quadrinhos, preciso de alguma forma contar as minhas histórias.
Se eu fizer da melhor maneira que eu puder, uma hora eu acredito que vai dar certo.
A gente foi fazendo assim. No Brasil, parte dos livros que a gente fez, a gente tem uns dez, em quase todos eles a gente não ganhou nenhum dinheiro nem a editora. A editora pagava os custos. Mas uma hora começou a dar certo.
Eu acho que é assim que esse caminho funciona. Talvez demore mais…
FA: Depois começaram a fazer os fanzines, a distribuir os fanzines… Inicialmente para vocês, não?
B&M – A gente fazia o fanzine para parar de ler só prá gente. Se não tinha uma editora, se não tinha um mercado, a gente precisava de fazer alguma coisa para mostrar pras pessoas o que é que a gente queria fazer.
FA: E foram distribuindo?
B&M: A gente vendia na faculdade, a gente vendia em bares, no trabalho. A gente trabalhou num milhão de coisas: foi guia de museu, professor de Artes, trabalhou fazendo ilustração para revista, para história de propaganda.
FA: Ainda fazem isso?
B&M: Hoje em dia, não mais. A gente parou porque estava atrapalhando os quadrinhos. A gente fazia aquilo para ganhar dinheiro. Aí, no momento que os quadrinhos começaram a pagar todas as contas, a gente parou porque atrapalhava o tempo que precisava para fazer quadrinhos. Precisa de muito mais tempo para fazer quadrinhos do que para todas essas coisas.
(A 3ª e última parte desta entrevista pode ser lida aqui)

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