Entrevista com Fábio Moon e Gabriel Bá (parte 3 de 3)
Terceira e última parte da entrevista a Fábio Moon e Gabriel Bá (a 1ª parte pode ser lida aqui e a 2ª aqui).
Continuam expostos na Galeria Mundo Fantasma (até 11 de Julho) os originais de alguns dos trabalhos mais recentes desta dupla genial.
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FA: Vocês trabalham muitas horas por dia…
B&M: Muitas horas por dia, todos os dias.
FA: Não há um sábado, um domingo para sair?
JRF: Estava a acompanhar o vosso twitter e vocês só trabalham!
B&M: Só trabalho, né?
FA: Não saem, não fazem uma viagem?
B&M- A gente veio a Portugal.
FA: Mas foi em trabalho.
B&M – Pra gente fazer uma viagem, tem que se preparar. Hoje em dia, a gente tem a tira (“Quase Nada”) no jornal Folha de S. Paulo, toda a semana. Então, pra viajar, a gente tem que deixar pronto, tem que fazer antes. Se vai viajar uma semana, tem que fazer uma semana antes.
Por exemplo, a gente está fazendo o Daytripper. Não dá para viajar no meio do Daytripper. Tem que esperar de acabar pra aí poder viajar.
JRF: E a tira não é relacionada com a realidade? Se acontecer hoje um escândalo no Brasil, vocês não têm que fazer logo uma?
B&M: Não, não. É o que a gente quiser fazer.
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FA: A tira é um bocado surreal.
B&M: A tira, ela é meio surreal.
FA: Li umas mais recentes e umas mais antigas. Mas parece-me até que as primeiras eram quase mais realistas… ou foi impressão minha, das que li. Parecia mais que o texto e imagem batiam mais certo do que agora. Agora, podemos estar a ver uma formiga com um pensamento e muda para um elefante.
B&M: Todas as tiras, elas têm um bicho. O bicho é para a eficiência da tira, para lidar com a mensagem da tira. Mas cada tira não tem uma relação com a outra, não tem uma sequência. São reflexões, micro historinhas quotidianas.
FA: Vocês têm uma ideia para uma e desenham-na ou têm umas cinco ou seis ou sete?
B&M: Não, não dá. Nunca tem sequência, nunca tem continuidade…
FA: Mas têm várias ideias e fazem uma, duas, três…?
B&M: Não, não. Também não porque senão elas acabam ficando muito parecidas. Elas acabam ficando muito uma repetição de uma mesma ideia.
A gente tenta fazer histórias, tiras que tenham um pensamento muito distinto. Se faz várias, vamos acabar carregando mais ou menos a mesma ideia. Então, a gente faz uma por semana, no máximo duas, para tentar ser sempre diferente.
FA: Fazem agora uma ilustração para um site de cinema (Cineclick) e também não tem a ver com actualidade. É acerca de um filme que vos marcou…
B&M: Às vezes a gente fala de um filme que esteja no cinema mas a gente pode falar de filmes que a gente já viu e gostou. Pode fazer o que quiser, na verdade. Às vezes é mais interessante falar de um clássico que todo o mundo viu e aí todo o mundo relaciona com o desenho. Nem sempre tem um bom filme passando no cinema.
FA: Mas há muitos filmes para trás…
B&M: Tem muitos bons filmes de que a gente pode falar.
FA: Há pouco disseram que deram palestras, foram guias de museu. Isso ajudou também vocês a conversarem, a divulgarem o que fazem, a falar com as pessoas, exoplicando o vosso trabalho?
B&M: Eu acho que sim. Acho que ajuda, né?
A gente fez licenciatura na Faculdade, aprendeu a ser professor e gosta de dar curso, gosta de ensinar. A gente gosta de falar sobre o trabalho, gosta de falar sobre quadrinhos porque a gente gosta de quadrinhos, gosta da arte dos quadrinhos. Não tem ninguém melhor do que a gente para explicar o que a gente faz.
FA: E como faz.
B&M – Como faz não é importante. Importante, é o que faz. Porque as pessoas não sabem o que faz. Na verdade, a banda desenhada, na maioria das vezes é o quê? Super-herói. É o que vende mais. E a gente não faz o que vende mais.
FA: Mas se depois disso, alguém tiver curiosidade para ler outro tipo de coisas, não é mau.
B&M: Não é mau mas é muito pouco comum o fã de super-heróis vir atrás de outras coisas. E se ele vem, ele não sabe que existe. Então, o nosso trabalho não está exactamente atrás dos fãs de super-herói. A gente está atrás das outras pessoas.
FA: Que gostam de histórias…
B&M: As outras pessoas que talvez não vão atrás de banda desenhada porque acham que é só super-herói. Então, a gente quer mostrar que tem muitas outras possibilidades e que dá para fazer qualquer coisa.
FA: Cá, ou é super-heróis ou é…
B&M: Mônica…
FA: … Tio Patinhas, Mônica. Parece que não há um meio termo. É difícil dizer a alguém: “Leiam este livro, é uma boa história que está aqui. Não é uma coisa só para crianças…”
JRF: Eu adorava super-heróis.
FA: Eu também.
B&M: Eu também adorava super-heróis.
JRF: Adorava os Heróis da TV porque… havia os livros do Patinhas e tinha os reclames a anunciar os Heróis da TV. Mas não chegava cá. Depois chegou cá o nº 38. E o SuperAventuras Marvel nº1 .
B&M: SuperAventuras Marvel… a gente leu todos esses.
JRF: E agora não leio super-heróis. O mais mainstream que leio é o “B.P.R.D.”. Não, leio o Batman. Gosto muito daquelas histórias do Batman que saem das cronologias.
FA: Nºs especiais. De resto, já deixei de comprar super-heróis.
JRF: O último grande livro que li foi o “Market Day”, do James Sturm. Vocês conhecem?
B&M: Market…?
JRF: Market Day, do James Sturm. É novo.
B&M: Não, acho que não.
JRF: E o Wilson, do Daniel Clowes?
B&M: Esse é novo também. A gente leu o mês passado.
JRF: E há outra coisa. Eu acho que aqui na loja, 90% das pessoas, que têm aqui de tudo, se for a cores, gostam. A P&B, nem vale a pena falar.
B&M: Um dos motivos que a gente parou de fazer o Casanova, era por isso. Porque ele era preto, branco e verde e as pessoas achavam que era P&B, não era colorido. As lojas não queriam isto. E agora a gente está fazendo com a Marvel e colorindo tudo de novo porque as pessoas compram quadrinhos coloridos, não a P&B. Lá (nos EUA) o mercado para o colorido é muito maior.
FA: Ainda dão palestras ou também já não têm tempo para isso? Há uns dias foram à Casa das Rosas (em S. Paulo) falar de quadrinhos. Poesia e quadrinhos. Ou foi mais só poesia?
B&M: Foi poesia e quadrinhos. Era uma relação, era uma relação. Mas não são muitas assim e também depende de qual é o evento, de como a gente está de trabalho. É como a gente falou, a gente gosta de falar de quadrinhos. Se a gente tem uma chance de falar com um público diferente, num lugar legal, num ambiente legal, a gente dá palestra.
FA: E foi lá gente de poesia e quadrinhos? Notava-se mistura?
B&M – Não existe essa mistura mas tinha gente que… Essa mistura só existe pra gente.
Mas tinha gente que foi ver porque gosta de quadrinhos e tinha gente que frequentava a casa, que é um espaço cultural mais focado em poesia
Tinha gente dos dois públicos mas nenhum conhecia uma coisa da outra. Quem lê quadrinhos… Serviu para dar uma misturada, né? Teve gente que veio falar pra gente: “Ah, nunca li quadrinhos mas fiquei curiosa e tal”, e essa é a ideia.
FA: Para terminar, o que é que levam de Portugal?
B&M: Vinhos,. Vamos levar vinhos. A gente tem uma aguardente de Beja também. Disfarçada numa garrafa… disfarçada de vinho. Está numa garrafa de vinho.
FA: Viram alguma coisa ou só deu mesmo para estar no Festival, vir para aqui, hotel…
B&M: Ah, por enquanto a gente fez um passeio pelo Porto. Hoje fizemos alguns passeinhos. O passeio no Porto foi ótimo.
FA: Foram à Ribeira?
B&M – Tivemos uma guia perfeita porque ela sabia tudo, toda a controvérsia, polémica por polémica, as polémicas culturais do Porto e isso dá outro tempero à visita. A gente agora tem uma ideia muito mais pessoal da vida actual do Porto.
FA: Ainda vão estar mais algum tempo em Portugal?
GB – Amanhã (2 de Junho) a gente vai para Lisboa. A gente queria ir para Óbidos…
FA: Óbidos é uma vila muito bonita.
GB: …porque falaram que é bonito, que vale a pena. E acho que a gente fica mais um ou dois dias em Lisboa. Eu vou para o Brasil, o Fábio vai para Itália. O Fábio está de férias.
FA: Vai estar de férias, mesmo?
FM: Eu estou de férias.
FA: Então há umas pausas de vez em quando…
FM: É, minha primeira pausa em dez anos.
FA: Dez anos! Isso é muito tempo! Obrigado pela entrevista. Espero que estejam a gostar de Portugal e que regressem depois em visita de lazer, se puderem. Muito obrigado.

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